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Desvaziar

Meus destalentos me pegam de tropeço por vezes. Não vou negar que tenha lá minhas habilidades. Sei fazer uma janta, tirar um barulhinho do violão, até essas coisas artesanais não são tanto um bicho de sete cabeças, mas dançar... Tenho uns tantos desafetos. Verdade que afetos tenho muitos, e eles estão espalhados por esse país nada pequeno. Deles eu faço pequenos lares, e cada afeto carrega um pedacinho do que sou eu (e às vezes me pergunto se sobrou eu pra mim), mas outras pessoas me fazem entortar o nariz, confesso. São umas ideologias tortas, são algumas vidas vazias, em muitos uma síndrome de zumbi (que até me mordeu, bitch!) e uns orgulhos dos grandes. Em mim existem dessabores, daqueles de fazer careta. Mas sempre tem aquele doce suave que com o cítrico faz um céu na boca de fofura. Só são mesmo dessabores mesmo quando mistura doce com sal, ou é muito qualquer coisa. Quando azeda, arde o nariz, pinica, coça, corrói. Quando palpita, repete, insiste, cutuca. Quando passa bem d...

Voz(es) das Gentes

Eu me segurei o quanto pude pra escrever esse aqui. Eu tentei me controlar, juro. Esse aqui vai ser político, então se você esperava poesia por poesia, aviso logo que a poesia desse vai estar no final. Eu estava com sincera saudade de ver gente na rua, cartazes e gritos. Tava com saudade da mídia tentado acobertar, da manipulação das fotos, da polícia lutando pra conter o "vandalismo" e fazendo de tudo pra proteger a todo custo a autoridade que o Estado lhe deu. Não vou entrar em méritos de legitimidade, mas eu quero bater palmas, de pé, pra juventude. A minha saudade não é dessas de verdade não, porque eu não me lembro de já ter visto tanta gente de carne e osso na rua por um propósito só. É a saudade da memória que os livros de história põe na sua cabeça, sabe? Pois é. Dessas. Se eu pudesse dava um abraço em cada um que foi às ruas dar a cara a tapa, que se deixou ser chamado de vândalo, de vagabundo, daria mesmo! Dois. Um por ter feito o que fez e outro por  tr...

Sem Amor

O terceiro dia de um mês bonito saiu por detrás das montanhas com uma cara pálida de quem não sabe amanhecer. Acordou enxugando com as mangas do moletom a tristeza que escorria raivosamente pela cara amassada, pensando que agora passaria a tal dor desgraçada. Mas ela o acompanhou discretamente por alguns diálogos, afazeres, por algumas horas até. Não sendo forte o bastante ela deixou que a dor a vencesse. Fechou a porta do quarto, sentou na cama e desabou a chorar, de soluços altos, de caretas feias de se chorar, de solidão, de nó, de susto, de saudade, de perda, de tristeza triste, mas tão triste, que lhe roubou a fome. Pensou que mundo ogro seria sem amor. Quis que um bicho lhe mordesse e arrancasse logo o coração, numa dentada só, se isso acontecesse. Não dava pra viver sem amor. Viveria sem teto, sem comida, sem lugar, sem ser, mas sem amor... Ela não saberia. O choro foi embora antes de um minuto, mas a fome não voltou não. A tristeza triste ainda tava lá, o nó, a solidão, a...

Lua Clara Luna Menina

A lua dá na minha janela. Isso já tem toda a poesia que eu poderia escrever em dezenas de linhas sem falar coisa alguma. Ela, clara, olha em volta e tudo o que ela vê é breu. Menina lua, me olha pra ver: Meus olhos brilham, Te devolvem a paz que me dás. Não são claros como os teus, Nem são de iluminar caminho, Mas eles nos teus Me tiram o ar Me tiram do ar Me tiram, doar Me doo, me tiro de mim. Essa lua na janela, lua menina Tem escrita em escuro Meu amor por ela Luna, clara. Lua, Clara, Luna, menina Minha noite negra só tem não ter. Clara luna, me ilumina Rogo com fé de quem já viu a paz Já tocou na paz Já beijou a paz Já deitou e rolou dentro do abraço Do espaço Pequeno entre o infinito e o agora De quem já conheceu o fim do cansaço De tanta água salgada em cachoeira De tanto amor apertado De tanto vazio entre o peito e o braço. Lua de iluminar mundo Vem trazer clareza ao meu. Vem me devolver o abraço Da paz Do fim do cansaço O beijo O infin...

Desvirtude

Eu sempre peço mais desculpas do que as necessárias. Não é excesso de humildade, acho que é excesso de culpa. Não da que eu tenho, da que eu acho que mereço. Parece complicado, mas na verdade é tão simples quanto 2+2=4 (é assim, mas há quem duvide). Eu cuido de uma flor. Ela é um presente que eu ganhei, e de todos ela é o mais importante. É uma flor, viva. Ela precisa ser cuidada. Mas quem me deu, mesmo sabendo que eu sou a pessoa mais desastrada desse mundo, insistiu pra que eu cuidasse dela, teimoso que só Ele. Mas esse é quem sabe das coisas, então vou cuidar... Acontece que, enquanto caminho com ela, a apertando contra o peito pra protegê-la do vento, da poeira, dos olhares insípidos, dos raios UV, nem percebo no caminho os atropelos e tropeço, machucando a flor de tanto descuido que me é de batismo. Tudo o que eu queria era saber cuidar-lhe, bela, porque pra mim não há outro presente que se me dera o qual fosse tão amado. Mas de tantos tropeços, desatenções, descuidos, d...

Declaração Subliminar

De todos os hipócritas, eu sou a maior. Não porque sou mais hipócrita, mas porque conheço as minhas hipocrisias. Poderia citá-las aqui em uma lista, mas não farei isso pra não ser julgada: primeira confissão. Eu poderia, e sim, seria muito fácil, esquecer das minhas convicções e me tornar uma só com a fachada que apresento às pessoas. Mas a fachada não sou eu. E o meu eu não pode ser fachada. Meu eu é contraditório, surpreendente (e clichê), aventureiro, monótono, tedioso, péssimo em matemática e anti-capitalista. Meu eu é medroso também. Tanto que ninguém sabe quem sou eu. Quem sabe, nem dessa dimensão é. Meu eu é a favor do amor, acima de tudo e de todos. Meu eu quer amar e ser amado, sem fachada, e sem hipocrisias. Mas eu sou hipócrita. E cínica. Meu eu não olha a quem. Meu eu é infantil e idiota. Bobalhão, atrapalhado, incoerente. Meu eu gosta de literatura e poesia. Meu eu faz músicas sem rima e zilhares de declarações que nunca sequer saíram da minha cabeça. Meu eu...

New Day

I wish I could drown. No, it's not about dying. I wish I could be underwater, thinking about dying. Maybe even get there, in the death, experiencing the darkness of nothing, the "no tears, no pain" life for a few seconds, then get back to live. Breathe in the air of a not-dead-anymore person, just for living in this paradise called "not being me" for some short time. The pleasure of having a second chance. I'd like to drown and be under my biggest fear, wanting it to consume me and make me understand that it's stronger than me, and it can and will control me, and it will have my life in its arms, giving me no other option but giving up. I'd like to live something concrete. Somenthig harder than me. Something that shakes me up. Something that makes me wonder why did I ever had choices to make, if we're all going under the same strength that will make our bodys like dancers in a concert, doing premeditated and repetitive movements, going agains...