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Esses Seus Amores

Vou escrever uma música pra você e colocar na gaveta. Nela vai estar escrita uma declaração subliminar e seu nome não estará em nenhuma das linhas. Eu vou então esquecer meus segredos pra tentar decifrar os seus, vou tropeçar nas palavras todas, vou amassar as cartas escritas, vou deixar outras em branco. Até esquecer seu nome, seus olhos, seus suspiros, seus delitos. Até desamar voc, os trejeitos, os conceitos, os amores. Esses seus amores que eu tanto invejei.

Esquecer

Ela suspirou um suspiro engasgado; e foi embora. Foi a última coisa que escutei dela. Desviei o olhar e deixei-a ir. Fechou a porta da frente e jogou a chave por debaixo da porta - pra provar que não havia a possibilidade de voltar. Agora todos estavam sozinhos... Como o destino previa. Vi o livro em cima da cama. Corri pra levar a ela, mas ela já tinha ido. Deixou a chave e gotas no piso do apartamento. Salgadas e, pra mim, amargas. O livro ficou agora no sofá, com o meu casaco jogado do lado, que ainda tinha o cheiro dela. Eu não quis mostrar compreensão ou o mínimo de afetividade. Ela tinha que ir. Tinha que crescer. E me deixar crescer. Ela passou pela porta e eu não olhei. Não queria guardar aquela imagem. Ia ficar atormentando o sono, me incomodando os livros, me atordoando as palavras. Pra o tédio não me consumir, saí. Tinha fumaça, flash's verdes, roxos, azuis... Tinham mulheres, tinha um copo. E agora tinha o desenho do meu teto. Tinha alguém do meu lado. Os lençóis....

Máscara

Ei, licença, posso usar essa sua... Isso que tá aí no seu rosto, essa... Como é o nome disso, meu Deus? Ai, faz tanto tempo que eu não uso... LEMBREI. Me empresta essa simpatia aí. Essa, menina, que você não cansa de usar, e que nunca tira da cara, que faz todo mundo crer que seu mundo é perfeito e cheio de borboletas coloridas voando livremente entre campos gramados impecavelmente verdes. Me empresta um pouquinho só, me deixa ver o teu mundo como é. Nós duas sabemos que campos e borboletas não duram mais do que 15 minutos, 20 se tiver sorte. Me conta teus medos. Você não é indestrutível, você não precisa ser a base de todo mundo. Vem, eu te empresto meu ombro em troca. Aliás, pode ficar com ele se quiser. Derrama as lágrimas que tanto ficaram presas durante os anos de uma juventude atípica. Eu te convido agora pra viver comigo o que você quiser. Te dou meus minutos, minhas horas, meus dias. Vem, menina, se deixa ser. Eu posso ler pra ti um bom livro, a gente pode ouvir boa m...

Você

Meu coração vai correr quando te ver. A festa vai parar, a música ficar em slow motion e eu vou fazer cara de boba e sorrir depois. Os rostos suados das pessoas nem ligarão, mas uma alma vai dizer "eu já sabia". E eu vou ficar sem graça pelo resto da noite, sem saber sequer como me mover, imaginando que você irá interpretar cada ação, cada reação. Mas você me conforta com seus lábios se desprendendo e cortando a face, como se usasse uma lâmina de plumas coloridas. E o meu riso encontra seus olhos, que encontram meus cabelos, que encontram suas mãos, que encontram meus lábios que tocam os se- Acordo.

E agora, desamar?

                Ela nem sabia por que todo mundo chamava assim. Era uma palavra engraçada e curta: amor. Que com um sotaque interiorano ficava ainda mais divertida de ouvir. Mas saber o que é? Também não. Era coisa pra gente grande. Até que um dia nem quis mais descobrir. E não quis mesmo.                 Coração de gelo. Amava com outros nomes, amava sem nome, amava desconhecendo, amava de olhos fechados. Mas nunca era amor. Que amor de verdade ou tem final feliz ou alguém morre - como em filme de drama. Nem nunca seria.                 Até o dia que conheceu alguém louco pra amar. E quis amar. E quiseram se amar. E não podiam. Trairiam. Pra não trair, não se amaram. E viveram os dois sem nunca saber o que é o tal amor.

Adeus - Série Ironias

Ironia é a gaita soar para alguém que já não pode mais ouvir. O dia ainda não tinha mostrado seu sol; o que raiava agora era a melancolia de uma noite em claro; Nos ouvidos, a melodia triste de uma música escoteira de despedida que a gaita chorava. As noites nunca mais seriam as mesmas.                   Perdoe-me se a carta parece molhada. É que meus olhos ardem com a ideia de uma última imagem. Desculpa também se me demoro. Meus braços estão cansados de ir ao rosto enxugar a chuva incansável que lava a alma. Que caiu na noite certa. Chuva que, pra mim, era o choro dos anjos chorando no rosto errado. Esse era o meu.                 Eu não queria dizer adeus e por isso inventei que aquele abraço não seria o último. Dizem que o primeiro passo pra uma mentira se tornar fato é a fé do contador. E eu quis acreditar. E acreditei ...